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Eu sou o Criador do Céu e da Terra. Você perguntava, esposa minha, porque sou tão paciente com os malvados. Isso se deve ao fato de ser misericordioso. Minha justiça os agüenta por três razões e, por três razões minha misericórida os mantém. Em primeiro lugar, minha justiça os agüenta de forma que seu tempo se complete até o final. Você poderia perguntar a um rei justo porque ele não condena alguns prisioneiros à morte e sua resposta seria: ‘Porque ainda não chegou o tempo da assembléia geral da corte na qual poderão ser ouvidos e porque também, aqueles que os ouvem, podem tomar maior consciência’. De forma parecida, eu tolero os malvados até que chegue seu tempo, de maneira que sua maldade possa ser conhecida por outros.
Não preveni a condenação de Saul muito antes que se desse a conhecer aos homens? Os tolerei durante muito tempo para que sua maldade pudesse ser mostrada a outros. A segunda razão é que os malvados fazem alguns bons trabalhos pelos quais devem ser compensandos até o último centavo. Desta forma, nem o mínimo bem que tenham feito por mim ficará sem recompensa e, conseqüentemente, receberão seu salário na terra. Em terceiro lugar, os agüento para que manifeste assim a glória e a paciência de Deus. É por isso que tolerei Pilatos, Herodes e Judas, apesar de merecerem ser condenados. Assim, respondi a pergunta de por que tolero tais pessoas que concordam com Judas e Pilatos.
Minha misericórdia mantém os malvados também por três razões. Primeiro porque meu amor é enorme e o castigo é eterno e muito grande. Por isso, devido ao meu grande amor, os tolero até o último momento para retardar seu castigo o quanto for possível na extensa prolongação do tempo. Em segundo lugar, é para permitir que sua natureza seja consumida pelos vícios, pois experimentariam uma morte temporal mais amarga se tivessem uma constituição jovem. A juventude padece uma maior e mais amarga agonia na hora da morte. Em terceiro lugar, pelo bem das boas pessoas e conversão de alguns dos malvados. Quando as pessoas boas e retas são atormentadas pelos perversos, isso beneficia os bons e justos, pois os permite resistir a pecar ou conseguir um maior mérito.
Igualmente, os malvados, às vezes, tem um afeto positivo por outras pessoas perversas. Quando esses últimos refletem sobre a queda e maldade dos primeiros, dizem a si mesmos: ‘De que nos serve seguir seus passos?’ E: ‘se o Senhor é tão paciente, será melhor que nos arrependamos’. Desta forma, acontece de voltarem a mim porque temem fazer o que fazem os outros e, além disso, sua consciência lhes diz que não devem fazer esse tipo de coisas. Dizem que, se uma pessoa é picada por um escorpião, pode-se curar a vítima quando se unta o local da picada com azeite e, assim, morreria outro escorpião. De forma parecida, em outras circunstâncias, uma pessoa malvada que vê a outra cair pode ver-se ferroada pelo remorso e curada ao refletir sobre a maldade e vaidade do outro.
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