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A Corte Celeste foi vista diante de Deus. Toda a Corte disse: “Louvado e honrado seja, Senhor Deus, você que é, foi e será sem fim! Somos seus servidores e lhe oferecemos um triplo louvor e honra. Primeiro, porque nos criou para que gozássemos contigo e, também nos deste uma luz indescritível em que nos regozijamos eternamente. Segundo, porque todas as coisas foram criadas e são mantidas em sua bondade e constância e todas as coisas permanecem de acordo com sua conveniência e se submetem à sua palavra. Terceiro, porque criou a humanidade e adotou uma natureza humana para o bem dela.
Nos regozijamos grandemente por essa razão e, também, por tua castíssima Mãe que foi achada digna de gerar-lhe e a quem os Céus não podem conter nem limitar. Por isso, por meio da classe angelical que exaltou com honra, que vossa glória e bênçãos recaiam sobre todas as coisas! Que vossa inesgotável eternidade e constância esteja sobre tudo o que possa existir e permancer constante! Só o Senhor, há de ser temido por seu grande poder, só o Senhor há de ser desejado por sua grande caridade, só o Senhor há de ser amado por tua constância. Louvado seja incenssantemente e para sempre! Amém!”
O Senhor respondeu: “Vocês me honraram dignamente por toda a criação. Mas, digam-me, por que me louvam pela raça humana que me provoca mais indignação do que qualquer outra criatura? A fiz superior às criaturas menores e por nenhuma outra tenho sofrido tanta indignidade como pelos humanos e nem redimi a nenhum outro ser com tão alto preço. Que criatura, a não ser o homem, não se guia por sua ordem natural? Causam-me mais problemas que as demais criaturas. Igualmente os criei como vocês, para que me louvem e glorifiquem. Fiz um Adão para que me honrasse e dei-lhe um corpo para que fosse seu templo espiritual e coloquei nele uma alma como de um belo Anjo, porque a alma humana é de virtude e força angelicais. Neste templo, Eu, seu Deus e Criador, fui seu terceiro companheiro para que ele desfrutasse e se deleitasse em mim, pois, em seguida, lhe fiz um outro templo similar de sua costela.
Agora, esposa minha, para quem dispusemos tudo isso, pode perguntar: ‘Como foram ter filhos se não tiveram pecado?’ Respondo-lhe: O sangue do amor semeou sua semente no corpo da mulher sem nenhuma luxúria vergonhosa, mediante o amor divino, o afeto mútuo e o intercâmbio sexual que tiveram um pelo outro e, assim, a mulher se fez grávida. Uma vez concebido o filho sem pecado ou prazer luxurioso, Eu infundi uma alma de minha divindade nele e a mulher gerou assim o filho e o deu à luz sem dor. O menino nasceu perfeito como Adão. Mas ele desprezou esse privilégio ao permitir que o demônio condicionasse uma maior glória da que eu lhe havia proporcionado.
Por trás de seu ato de desobediência, meu Anjo veio a eles e por isso se envergonharam de sua nudez. Neste momento, experimentaram a concupiscência da carne e, assim, sofreram fome e sede. Também me perderam. Antes, quando me tinham, não sentiam fome, nem desejo carnal, nem vergonha e somente Eu era todo seu bem, seu prazer e perfeito deleite. Depois que o demônio se alegrou por sua perdição e queda, comovi-me por eles com dor e não os abandonei, mas lhes mostrei uma grande misericórdia. Vesti sua nudez, dei-lhes pão da terra e, pela mudança da sensualidade que o demônio gerou neles por trás de seus atos de desobediência, infundi almas em suas sementes, através do meu poder divino.
Também converti tudo o que o demônio lhe sugeriu em algo para seu bem. Depois lhe mostrei como viver e como serem dignos de mim. Dei-lhes permissão para terem relações lícitas e o havia feito antes, mas eles estavam paralisados de medo e temerosos de unir-se sexualmente. Igualmente, quando Abel foi morto e estiveram condoendo-se por muito tempo mantendo abstinência, fui movido pela compaixão e os confortei. Quando se lhes fiz saber minha vontade, começaram de novo a ter relações e a procriar. Prometi-lhes que Eu, o Criador, nasceria de sua descendência. À medida que cresceu a maldade dos filhos de Adão, mostrei a justiça aos pecadores e a misericórdia a meus eleitos. Assim me comprazi, os preservei da perdição e os criei, porque mantiveram meus mandamentos e acreditaram nas minhas promessas. Quando chegou o momento da minha misericórdia, permiti que minhas poderosas obras fossem conhecidas através de Moisés e salvei meu povo, segundo o que havia dito. Os alimetei com o maná e caminhei à frente deles em uma coluna de nuvem e fogo. Dei-lhes minha Lei e lhes revelei meus mistérios e o futuro mediante meus profetas.
Depois disso, Eu, Criador de todas as coisas, elegi para mim uma Virgem nascida de um pai e uma mãe. Com ela, assumi a carne humana e aceitei nascer dela sem relações sexuais nem pecado. O mesmo que aqueles primeiros filhos haviam nascido no paraíso através do mistério do amor divino e do amor e afeto mútuo de seus pais, sem nenhuma luxúria vergonhosa, assim, minha divindade adotou uma natureza de uma Virgem, gerada sem sexo e sem dano a sua virgindade. Ao assumir a carne, Eu, verdadeiro Deus e Homem, cumpri a Lei e todas as escrituras, tal como antes se havia profetizado sobre mim.
Introduzi uma nova Lei, porque a antiga havia sido restrita e difícil de cumprir e não foi mais que um molde do que havia de fazer no futuro. Na antiga Lei havia sido lícito pra um homem ter várias mulheres de forma que as gerações vindouras não ficaram sem filhos ou tiveram que unir-se aos gentios. Na minha nova Lei, se ordena ao marido que tão somente tenha uma esposa e o proíbe, durante o tempo que ela viver, de ter várias mulheres. Aqueles que se unem sexualmente mediante o amor e temor divino, pelo bem da procriação, são um templo espiritual onde eu desejo morar como o terceiro companheiro desse casal.
Todavia, as pessoas destes tempos se unem em matrimônio por sete razões. Primeiro, pela beleza facial; segundo, pela riqueza; terceiro, pelo prazer grosseiro e gozo indecente que experimentam na relação sexual; quarto, pelas festas e glutonaria descontrolada; quinto, porque aflora o orgulho no vestir, no comer, nas distrações e em outras futilidades; sexto, para ter retornos, mas não para Deus nem para as boas obras senão para o enriquecimento e honra; sétimo, se unem pela luxúria e pelo luxurioso apetite das bestas. Estas pessoas se unem ante a porta de minha Igreja com acordos e harmonia, mas seus sentimentos e pensamentos internos são completamente opostos aos meus.
Em lugar de minha vontade, preferem sua própria que se inclina por comprazer ao mundo. Se todos os seus pensamentos se dirigissem a mim e se confiassem sua vontade em minhas mãos e casassem no temor divino, então lhes daria minha aprovação e Eu seria seu terceiro companheiro. Mas, agora, apesar de estar em sua cabeça, não conseguem minha aprovação porque têm mais luxúria em seu coração do que amor por mim. Sobem ao altar e ali ouvem que deveriam ser um só coração e mente, mas meu coração se aparta deles porque não possuem o calor de meu coração e não conhecem o sabor de meu corpo.
Eles buscam um calor perecível e uma carne que é comida pelos vermes. Assim, estas pessoas se unem em matrimônio sem o laço da união de Deus Pai, sem o amor do Filho e sem o consolo do Espírito Santo. Quando o casal chega à cama, meu Espírito o abandona, pois lhes acerca o espírito da impureza, porque tão somente se unem na luxúria e não argumentam nem pensam em nada mais. Mas, ainda, minha misericórdia pode estar com eles sem se converterem, porque Eu, amorosamente, coloco uma alma vivente, criada por meu poder, em sua semente. Às vezes, permito que os maus pais tenham bons filhos, mas é mais freqüente que nasçam maus filhos de maus pais, pois estes filhos imitam a iniqüidade de seus pais tanto quanto podem e lhes imitariam ainda mais se minha paciência permitisse. Um casal assim nunca verá meu rosto, a menos que se arrependa, porque não há pecado tão grave que não possa ser limpo pela penitência.
Falarei agora do matrimônio espiritual, que é apropriado que Deus contraia com corpos puros e almas castas. Nele, há sete benefícios, que são os opostos dos males mencionados acima. Nele não há desejo de beleza de formas ou formosura corporal nem de vistas prazerosas, senão tão somente a visão e o amor de Deus. Tampouco há, em segundo lugar, nenhum desejo de possuir nada nem acima nem mais do que o necessário que se exige para viver sem excesso. Terceiro, os esposos evitam as conversas frívolas e ociosas. Quarto, não lhes preocupa reunir-se com amigos ou parentes porque Eu sou o único que eles amam e desejam.
Quinto, mantêm uma humildade interior em sua consciência e também externamente em sua forma de vestir. Sexto, nunca têm vontade alguma de conduzir-se pela luxúria. Sétimo, geram filhos e filhas para Deus, por meio de seu bom comportamento e bom exemplo e mediante o aconselhamento de palavras espirituais. Assim, ao preservar sua fé intacta, se unem ante a porta da minha Igreja, onde me dão sua aprovação e Eu lhes dou a minha. Sobem ao meu altar e desfrutam do deleite espiritual de meu corpo e de meu sangue. Deleitando-se com eles, desejam ser um coração, um corpo e uma vontade e Eu, verdadeiro Deus e Homem, poderoso sobre o Céu e a Terra, serei seu terceiro companheiro e encherei seus corações.
Aqueles casais mundanos desejam que seu apetite pelo matrimônio se baseie na luxúria das bestas e, muitas vezes, pior que as bestas! Estes esposos espirituais fundamentam sua união no amor e temor a Deus e não desejam comprazer com ninguém mais que a mim. O espírito do mal enche os primeiros e os incita ao deleite carnal onde não há nada mais que podridão. Os últimos se enchem de meu Espírito e se inflamam com o seu fogo divino que nunca falhará.
Eu sou um Deus em três pessoas. Sou uma mesma substância com o Pai e o Espírito Santo. Assim com é impossível para o Pai estar separado do Filho e para o Espírito Santo estar separado de ambos, assim como é impossível que o calor esteja separado do fogo, igualmente é impossível para estes esposos espirituais estarem separados de mim. Eu estou com eles como seu terceiro companheiro. Meu corpo foi ferido uma vez e morreu na Paixão, mas nunca mais será ferido nem morrerá. De igual forma, aqueles que se erguerem a mim através de uma fé reta e uma vontade perfeita nunca morrerão em mim. Onde quer que estejam, se sentados ou caminhando, estarei com eles como seu terceiro companheiro”.
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