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“Você será como alguém que se desprende do mundo e, por sua vez, colherá tais frutos com alegria. Tem que desprender-se das riquezas e colher virtudes, deixar aquilo que passará e acumular bens eternos, abandonar as coisas visíveis e se apossar do invisível. Ao contrário do prazer do corpo, darei-lhe a exultação de sua alma; ao contrário das alegrias do mundo, darei-lhe as do Céu; em vez da honra mundana, a honra dos anjos; em vez da presença da família, a presença de Deus; em vez de possuir bens, darei-lhe a mim mesmo, doador e Criador de todas as coisas. Responda, por favor, às três perguntas que formularei: Primeiro, diga-me se quer ser rica ou pobre neste mundo”.
Ela respondeu: “Senhor, prefiro ser pobre, pois as riquezas me criam ansiedade e me distraem ao serví-lo”. Diga-me, em segundo lugar, se você encontrou algo repreensível para sua mente ou falso nas palavras que ouviu de minha boca”. E ela disse: “Não Senhor, tudo é claro e compreensível”. “Terceiro, diga-me se o prazer dos sentidos que você experimentou antes agrada-lhe mais que os gozos espirituais que agora tem”. E ela respondeu: “Em meu coração envergonho-me de pensar em meus deleites anteriores e agora parecem veneno, são tão amargos quanto era meu desejo por eles. Prefiro morrer antes de voltar a eles; não podem se comparar com do deleite espiritual”.
“Portanto, disse ele, se pode comprovar que todas as coisas que lhe disse são certas, por que, então, tem medo ou está preocupada com o fato de eu atrasar tudo o que já disse que se fará? Tome em conta os Profetas, considere os Apóstolos e os Santos Doutores da Igreja! Eles descobriram algo em mim que não foi a verdade? É por isso que, para eles, não importaram nem o mundo nem seus desejos. Ou, por que crê que os profetas predisseram acontecimentos futuros com tanta antecipação se não foi pela vontade de Deus que eles dessem a conhecer as palavras antes dos feitos para que os ignorantes fossem instruídos na fé?
Todos os mistérios de minha encarnação foram concedidos com antecedência aos Profetas, inclusive a estrela que guiou os Magos. Eles creram nas palavras do Profeta e mereceram ver aquilo que haviam crido e lhes dei certeza no momento em que viram a estrela. Da mesma forma agora, minhas palavras deverão ser anunciadas, depois verão os feitos e se crerá neles com maior evidência.
Mostrarei a você três pessoas. Primeiro, um homem cuja consciência está manchada com um pecado manifesto e, o demonstrei por sinais evidentes. Por que? Não poderia fazê-lo destruindo-o pessoalmente? Não poderia tê-lo expulsado para o abismo eterno em um segundo se eu, assim, quisesse? Claro que sim. Mas o suporto ainda para a instrução dos outros e em prova de minhas palavras, mostrando quão justo e paciente que sou e quão infeliz é esse homem que é governado pelo demônio.
O poder do demônio sobre ele aumentou por sua intenção de permanecer no pecado e por seu deleite nele, com o resultado de que nem minhas palavras amáveis nem as duras ameaças ou o medo do Gehenna (do inferno) possam recuperá-lo. E, também, em justiça, porque ele teve uma constante intenção de pecar, mas, ainda sim, não o havia colocado em prática, por isso, merece ser enviado ao demônio por toda a eternidade. O mínimo pecado é suficiente para condenar a quem se deleita nele e não se arrepende.
Mostrarei agora os outros dois. O demônio atormentou a carne de um deles, mas não chegou a entrar em sua alma. Escureceu sua consciência mediante suas maquinações, mas não pôde entrar em sua alma nem adquirir poder sobre ele. Você pode perguntar: ‘Acaso não é a consciência o mesmo que a alma? Não está ele na alma quando está na consciência?’ Não. O corpo possui dois olhos para ver, mas, ainda, perdendo o poder da vista, o corpo pode manter-se são. Acontece o mesmo com a alma. Ainda que o intelecto e a consciência, às vezes, se perturbam na confusão com medo da penitência, ainda assim, a alma nem sempre fica ferida de maneira que encorra na culpa. Assim, pois, o demônio dominou a consciência de um homem, mas não sua alma.
Mostrarei ainda um terceiro homem cujo corpo e alma estão completamente sujeitos ao demônio. A menos que o coaja com meu poder e graça especiais, nunca poderá ser expulso nem sair dele. O demônio sai de algumas pessoas por vontade e disposição próprias, mas de outras sai tão somente pela resistência e baixa coação. Acontece ainda em algumas pessoas, bem devido ao pecado de seus pais ou por algum desígnio de Deus – como, por exemplo, em crianças ou naqueles que carecem de inteligência – em outros entra por sua infidelidade e pelo pecado alheio.
Desses últimos, o demônio sai voluntariamente quando é expulso por pessoas que conhecem conjuros ou a arte de expulsar demônios, sempre que o fazem sem vã glória ou por algum tipo de benefício temporal, pois o demônio tem poder para entrar naquele que o expulsa ou voltar de novo para a mesma pessoa de onde saiu, se não houver amor de Deus em nenhum deles. Nunca sai do corpo ou da alma daqueles que os possuem completamente, exceto mediante meu poder.
Como o vinagre que, quando se mistura com o vinho doce, infecta a doçura do mesmo e já não pode mais ser separado novamente, igualmente o demônio não sai da alma de ninguém a quem possua, exceto mediante meu poder. Quem é este vinho senão a alma humana, que foi mais doce para mim que nenhum outro ser criado, e tão querida que inclusive deixei que minha carne fosse cortada e meu corpo machucado até as costelas por sua salvação? Antes de perdê-la, aceitei morrer por ela.
Este vinho foi conservado entre os resíduos, igualmente, coloquei a alma em um corpo onde foi guardado, como em uma urna selada, pela minha vontade. Todavia, o pior vinagre se misturou com este vinho doce, estou me referindo ao demônio, cuja maldade é mais azeda e abominável para mim que o vinagre. Por meu poder, este vinagre será eliminado da pessoa cujo nome direi, de maneira que possa Eu revelar assim minha graça e sabedoria através dele, mas mostrarei meu juízo e minha justiça através do homem que acabo de lhe falar.
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