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Um anjo falou à esposa dizendo: “Há dois espíritos, um não criado e um criado. O não criado possui três características. Em primeiro lugar, ele é quente, em segundo lugar, doce e em terceiro lugar, puro. Ele não emite calor das coisas criadas, mas de si mesmo, uma vez que, junto com o Pai e o Filho, ele é o Criador de todas as coisas e o todo Poderoso. Ele emite calor sempre que a alma inteira se inflama pelo amor de Deus. Ele é doce, pois nada o agrada mais que Deus ou a lembrança de seus feitos. Ele é puro e nele nenhum pecado pode ser encontrado, nenhuma deformidade, nenhuma corrupção, ou mutabilidade.
Ele não emite calor como fogo material ou como o sol, que faz as coisas derreterem. Seu calor é tanto o amor interno quanto o desejo da alma que a completa e fica mais forte em Deus. Ele é doce à alma, não da forma como o vinho é escolhido, ou pelo sentir do prazer sensual ou, ainda, através de qualquer outra coisa no mundo que seja agradável. Preferivelmente, a doçura do Espírito é incomparável a toda doçura temporal e inimaginável àqueles que nunca a provaram. O Espírito Santo é tão puro quanto os raios do sol, onde nenhuma impureza pode ser encontrada.
O outro, o espírito criado, também possui três características. Ele está queimado, amargo, e sujo. Primeiro, arde em labaredas e se consome como as chamas, visto que incendeia a alma que possui com o fogo da luxúria e do desejo depravado. Isso faz com que não possa pensar em nada além daquilo que satisfaça sua vontade, até o ponto em que, como resultado, sua vida temporal perca toda a honra e consolidação. Segundo, ele é tão amargo quanto a bílis, visto que foi inflamado pelo desejo luxúrioso e, assim, convence a alma de que as alegrias futuras se comparam a nada e os bens eternos parecem tolices.
Tudo o que tem a ver com Deus e todas as práticas de amor da alma para com Ele, se tornam amargos e tão abomináveis como o vômito e a bílis. Terceiro, o espírito é imundo, uma vez que deixa a alma tão vil e propensa a pecar, também não se envergonha de nenhum ato torpe e nem desiste de nenhum ato vilipendioso que pratica.
É por isso que o espírito queima como fogo, pois queima pela injustiça e incendeia outros juntamente com ele. É por isso que este espírito é de fato amargo, pois todo o bem é amargo a ele, pois quer fazer o bem amargo aos outros, assim como também para si. Reafirmo novamente, ele é impuro, pois tem prazer com o imundo e procura recrutar outros como ele. Agora, você deve me perguntar: ‘Mas você não é um espírito criado assim como esse? Por que, então, você é dessa forma?’ Eu responderei: Claro que sou criado por aquele mesmo Deus que também criou o outro espírito, o que é imundo, uma vez que só há um Deus: Pai, Filho e Espírito Santo, três Pessoas, mas um único Deus. Todos nós fomos perfeitamente criados para o bem, uma vez que Deus não criou nada além do bem.
Posso ser comparado a uma estrela, pois permaneço na bondade e no amor de Deus, no qual eu fui e permaneço. Ele, o espírito imundo, pode ser comparado a um carvão, uma vez que deixou o amor divino. Portanto, assim como uma estrela tem brilho e esplendor e o carvão não, um Santo Anjo, que é como uma estrela, tem seu esplendor, ou seja, o Espírito Santo. Ele vive aquecido no amor de Deus, brilha em seu esplendor, se agarra a Ele e se conforma com a vontade de Deus, sem nunca querer qualquer coisa além daquilo que Deus quer. É por isso que ele arde como um labareda, é por isso que é puro.
O demônio é como um carvão feio, mais feio do que qualquer outra criatura, pois, só pelo fato de ter sido o mais belo dos Anjos, tornou-se o mais feio entre todos, justamente por opor-se ao seu Criador. Assim como os Anjos de Deus brilham à luz divina e se inflamam incessantemente em seu amor, o demônio também queima, mas na angústia de sua malícia. A malícia dele é insaciável, assim como a graça e a bondade do Espírito Santo são inexplicáveis. Entretanto, não há ninguém no mundo tão arraigado ao demônio cujo poder do Espírito Santo, ao visitá-lo, não mude seu coração. Da mesma forma, não há ninguém tão bom que o demônio não tente tocá-lo com sua tentação. Muitas pessoas boas e justas são tentadas pelo demônio com a permissão de Deus. Isto não é por causa da maldade e pecado que eventualmente tenham, mas para a sua maior glória.
O Filho de Deus, uno em divindade com o Pai e com o Espírito Santo, se foi tentado na sua natureza humana, mais seus eleitos são e serão postos à prova para uma recompensa ainda maior! Novamente, muitas pessoas boas, às vezes, caem no pecado e a consciência delas se escurece por conta da mentira do demônio, mas elas conseguem se levantar mais fortes que antes, pois o fazem mediante o Espírito Santo. Entretanto, não há ninguém que não se dê conta disto em sua consciência e que não perceba que a tentação do mal conduz à deformidade do pecado e não ao bem, tudo deve ser feito e analisado cuidadosamente, deve ser feito sempre uma confissão dos erros e uma meditação corretiva na própria consciência.
E assim, esposa do meu Senhor, você não deve ficar em dúvida se o espírito de seus pensamentos são bons ou maus. Pois a sua consciência lhe fala quais coisas ignorar e quais escolher. O que uma pessoa cheia de maldades deve fazer, uma vez que o Espírito Santo não pode entrar nela por estar cheia de pecados e vivendo na escuridão? Ela deve fazer três coisas: uma confissão clara e completa de seus pecados, na qual, mesmo se ela não estiver totalmente arrependida, devido à dureza de coração, mesmo assim se beneficie disso, visto que o demônio a respeitará e sairá do caminho do Espírito Santo.
Segundo, praticar a humildade, resolvendo, assim, reconciliar-se pelos pecados que cometeu praticando todo o bem reparador que puder, conseqüentemente, o demônio começará a ir embora. Terceiro, clamar o Espírito Santo a Deus em prece humilde, com amor verdadeiro e arrependido dos pecados que cometeu, pois o amor por Deus mata e expulsa o demônio.
O demônio é tão invejoso e malicioso que preferiria morrer cem vezes a ver alguém fazer um bom ato, por pequeno que seja, por amor a Deus".
Tomando a palavra, Maria Santíssima falou à esposa dizendo: “Nova esposa de meu Filho, arrume-se, vista seu broche, ou seja, a Paixão de meu Filho!” Ela respondeu: “Minha Senhora, coloque-o em mim!” E ela disse: “Claro que eu coloco. Eu também quero que você saiba como meu Filho estava disposto e por que os pais o almejaram tanto. Ele permaneceu entre duas cidades. A voz da primeira cidade clamava a Ele, dizendo: Você, aí, que está entre as duas cidades, você é um homem sábio, pois sabe como precaver os perigos iminentes.
Você também é forte o bastante para suportar males projetados. Você é bem corajoso, uma vez que não teme nada. Nós almejamos e esperamos por Você. Abra o nosso portão! Os inimigos estão bloqueando-o para que ele não possa ser aberto” Uma voz da segunda cidade foi ouvida: ‘Ó homem amável e forte, escute nossa queixa e lamento! Sentamos na escuridão e sofremos de fome e sede insuportáveis. Olhe para nossa pobreza e miséria! Nós estamos tão acabados quanto a grama cortada pela foice. Nós murchamos perdendo toda a bondade e toda nossa força nos deixou. Venha até nós e nos salve, pois só você é aquele que esperamos, temos esperança em você como nosso Salvador!
Venha e ponha fim a nossa pobreza, transforme nosso lamento em alegria! Seja nossa ajuda e salvação! Venha a nós, ó Corpo tão Precioso e Santo, corpo este vindo da Virgem Pura!’ Meu Filho ouviu estas duas vozes vindas das duas cidades, ou seja, do Céu e do Inferno. Portanto, em sua misericórdia, ele abriu as portas do inferno por meio da sua Paixão e o derramamento de seu sangue resgatou seus amigos que estavam lá, pois haviam morrido sem seu Santo e Doloroso Sacrifício na cruz. Ele também abriu o Céu e deu alegria aos Anjos através do resgate de seus amigos do inferno. Minha filha, pense nessas coisas e as guarde para sempre diante de você!”
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