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Sou como um habilidoso ourives que envia seu servo para vender ouro por toda a região, dizendo-lhe: “Você deve fazer três coisas. Primeiro, não deve confiar meu ouro a ninguém exceto naqueles com visão calma e clara. Segundo, não confie meu ouro a pessoas que não têm consciência. Terceiro, disponha meu ouro à venda a dez talentos pesados duas vezes! Uma pessoa que se recusar a pesar meu ouro duas vezes não o receberá. Você deve tomar cuidado com três armas que meu inimigo utiliza contra você. Primeiro, ele quer que você demore a expor meu ouro.
Segundo, ele deseja misturar um metal inferior ao meu ouro para que os que o vêem e o testem pensem que meu ouro não passa de barro mal conservado. Terceiro, ele dá instruções a seus aliados para que lhe contradigam e digam que meu ouro é de má qualidade”. Eu sou como este ourives. Forjei tudo no Céu e na Terra, não com martelos ou outras ferramentas, mas com meu poder e força. Tudo o que existe, existiu e existirá foi revelado a mim. Nem mesmo uma pequena minhoca ou o menor dos grãos pode existir sem mim. Entre todas as coisas que criei, entretanto, as palavras que saíram de meus lábios são as mais valiosas, assim como o ouro é o mais valioso entre todos os metais.
É por isso que meus servos, a quem envio com meu ouro pelo mundo todo, devem fazer três coisas. Primeiro, eles não devem confiar meu ouro a quem não tenha visão calma e clara. Você pode perguntar: “O que significa ter uma visão clara?” Bem, uma pessoa com visão clara possui sabedoria e caridade divinas. Mas como você pode saber isto? É óbvio. A pessoa que possui visão clara e que pode receber meu ouro vive de acordo com a razão, que se afasta da vaidade e curiosidade humanas, que não busca nada além de Deus. Mas esta pessoa é cega se possui o conhecimento, mas não pratica a caridade divina.
Parece ter seus olhos voltados para Deus, mas na verdade não o faz, pois seus olhos estão voltados para o mundo e suas costas estão voltadas para Deus. Segundo, meu ouro não deve ser confiado a alguém que não possui consciência. Quem possui consciência senão aquele que controla seus bens temporais e perecíveis visando a eternidade, que tem sua alma nos Céus e seu corpo na Terra, que reflete diariamente sobre como irá deixar a Terra e responder a Deus sobre suas ações? Meu ouro deve ser confiado a tal pessoa. Terceiro, ele deve dispor meu ouro à venda a dez talentos pesados duas vezes. O que essa balança usada para pesar o ouro simboliza senão a consciência? O que as mãos que pesam o ouro simbolizam senão a boa vontade e o desejo? Quais são os contrapesos usados senão o trabalho espiritual e o corporal?
Uma pessoa que quer comprar e guardar meu ouro, isto é, minhas palavras, deve examinar a si mesma de maneira justa na balança de sua consciência e considerar como irá pagar pelos dez talentos cuidadosamente pesados conforme minha vontade. O primeiro talento é a visão disciplinada. Isto faz o indivíduo considerar a diferença entre a visão corporal e a espiritual, qual a utilidade da beleza e aparência físicas, quanta excelência existe na beleza e glória dos Anjos e dos poderes celestes que ultrapassam todas as estrelas do céu em esplendor e a alegria que uma alma possui nos mandamentos de Deus e em sua glória.
Este talento, que representa a visão física e a espiritual, se encontra nos mandamentos de Deus e na castidade, sendo que as duas visões não podem ser medidas na mesma balança. A visão espiritual é mais valiosa que a corporal e por isso pesa mais, visto que os olhos de um indivíduo devem ser abertos ao que é benéfico para a alma e necessário para o corpo, mas fechados para a tolice e indecência.
O segundo talento é a boa audição. Um indivíduo deve considerar o valor da linguagem indecente, tola e zombeteira. Certamente, não vale mais do que um sopro de ar. É por isso que ele deve ouvir o louvor e os hinos de Deus. Deve ouvir os feitos e dizeres dos meus Santos. Deve ouvir sobre o que ele necessita para nutrir seu corpo e alma com virtude. Este tipo de audição pesa mais do que ouvir indecências. Este tipo benéfico de audição, quando pesado na balança e comparado ao outro tipo, irá pesar mais, enquanto o outro, que corresponde a uma audição vazia, não terá peso algum.
O terceiro talento é o da língua. Um indivíduo deve pesar a excelência e utilidade de um discurso edificante na balança de sua consciência. Deve considerar a nocividade e inutilidade de um discurso fútil e negligente. Deve descartar o discurso fútil e amar o discurso verdadeiro.
O quarto talento é o paladar. Qual o paladar do mundo senão a miséria? Enfrentamos dificuldade no começo, encontramos o pesar no meio do caminho e a amargura no final. Portanto, um indivíduo deve pesar cuidadosamente o paladar espiritual e o corporal, sendo que o primeiro pesará mais. O paladar espiritual nunca se perde, nunca se cansa, nunca diminui. Este tipo de paladar se inicia no presente através da repressão da luxúria e de uma vida de moderação e dura eternamente nos céus através da doce alegria de Deus.
O quinto talento é o tato. Um indivíduo deve pesar a preocupação e a miséria que sente por causa de corpo, de todas as preocupações do mundo, dos problemas que enfrenta com seu vizinho. Então a miséria o perseguirá em todos os lugares. Que ele também pese a grandiosidade da paz de espírito e de uma mente disciplinada, o bem que existe em não se preocupar com coisas fúteis e supérfluas. Então o conforto estará com ele em todos os lugares.
Qualquer um que queira medir isto deve colocar os sentidos espirituais e físicos na balança, e o resultado será que o espiritual supera o corporal. O tato espiritual se inicia e se desenvolve através da tolerância paciente das contrariedades e através da perseverança nos mandamentos de Deus, e dura eternamente em alegria e descanso em paz. Um indivíduo que atribui maior peso ao descanso físico e aos sentimentos e alegrias mundanos não merece tocar meu ouro ou desfrutar da felicidade.
O sexto talento é o trabalho humano. Um indivíduo deve pesar cuidadosamente em sua consciência o trabalho espiritual e o material. O primeiro leva aos céus, o segundo ao mundo; o primeiro a uma vida eterna sem sofrimento, o segundo a uma dor e sofrimento enormes. Qualquer um que desejar meu ouro deve atribuir maior peso ao trabalho espiritual, que é realizado em meu amor e pela minha glória, e não ao trabalho material, já que as coisas espirituais duram, enquanto o que é material um dia findará.
O sétimo talento é o uso ordenado do tempo. Um indivíduo recebe um certo tempo para devotar às questões espirituais sozinho, outro período para o trabalho corporal, sem o qual a vida é impossível (se este trabalho é utilizado de maneira sensata, então é considerado como uso espiritual do tempo), e outros períodos para atividade física. Já que um indivíduo deve retribuir parte de seu tempo e também de suas ações, ele deve, então, dar prioridade ao uso espiritual do tempo antes de dedicar-se ao trabalho material, e controlar seu tempo de tal forma que as questões espirituais recebam maior prioridade do que as temporais, para que o tempo não passe sem a investigação e o equilíbrio correto exigido pela justiça.
O oitavo talento representa a administração correta dos bens temporais dados a um indivíduo, o que significa que uma pessoa rica, contanto que seus recursos permitam, deve doar aos pobres com caridade divina.
Mas você pode perguntar: “O que deve uma pessoa pobre doar se nada possui?” Este indivíduo deve possuir a intenção correta e ter os seguintes pensamentos: “Se tivesse algo, o daria generosamente”. Tal intenção conta como uma ação. Se a intenção do homem pobre é tal que ele gostaria de ter posses temporais como os outros, mas pretende doar apenas uma pequena quantia e ninharias aos pobres, esta intenção é considerada como uma pequena ação. Assim, um indivíduo rico com muitas posses deve praticar a caridade. Um pessoa necessitada deve apenas ter a intenção de doar e esta intenção lhe renderá mérito. Qualquer um que atribua mais peso ao temporal em relação ao espiritual, quem der a mim um xelim, ao mundo cem e a si mesmo mil não utiliza um padrão de pesagem justo. Um indivíduo que usa um padrão como este não merece ter meu ouro. Eu, o doador de todas as coisas, e que também pode tirá-las, mereço a porção mais valiosa.
Os bens temporais foram criados para o uso e necessidade humana, não para coisas supérfluas. O nono talento é a consideração cuidadosa do tempo passado. Um indivíduo deve considerar suas ações, que tipo de ações foram, a quantidade, como ele as corrigiu e com que mérito. Ele deve também considerar se realizou menos boas ações do que más. Se suas más ações ultrapassarem as boas, então ele deve querer regenerar-se e estar verdadeiramente arrependido de seu atos. Esta intenção, se verdadeira e firme, pesará mais do que seus pecados na visão de Deus.
O décimo talento é a consideração e o planejamento do tempo futuro. Se um indivíduo possui a intenção de não querer amar nada além do que é de Deus, de não desejar nada além do que aquilo que agrada a Deus, de aceitar as dificuldades com boa vontade e paciência, mesmo o sofrimento do inferno, para oferecer conforto a Deus e fazer sua vontade, então este talento se sobressai perante o resto. Através deste talento todos os perigos são facilmente evitados. Qualquer um que pagar estes dez talentos terá meu ouro.
Entretanto, como eu disse, o inimigo quer impedir que as pessoas entreguem meu ouro de três formas. Primeiro, ele quer torná-los lentos e preguiçosos. Existe a preguiça física e a espiritual. A preguiça física se manifesta quando o corpo se cansa de trabalhar, de levantar-se e assim por diante. A preguiça espiritual se manifesta quando um indivíduo que possui uma mente espiritualizada, sabendo da doce alegria e graça de meu Espírito, prefere descansar nesta alegria em vez de sair e ajudar outros a compartilhar dele. Pedro e Paulo não experimentaram a doce alegria do meu Espírito abundantemente? Se fosse minha vontade, eles teriam repousado escondidos na porção mais baixa da terra com a alegria interior que possuíam em vez de saírem para o mundo.
Entretanto, para que outros possam participar desta alegria e para que instruam outras pessoas, eles preferiram sair pelo bem dos outros assim como pela sua própria glória e não permanecerem sozinhos sem fortalecer outros com a graça que lhes foi concedida. De maneira semelhante, meus aliados, embora gostariam de estar sozinhos e desfrutar a alegria que já possuem, devem seguir em frente para que outros também possam participar dela. Assim como alguém que tem muitas posses não as usufrui sozinho, mas sim as confia a outros, minhas palavras e minha graça não devem ser escondidas e sim difundidas a todos, para que possam ser edificadas.
Meus aliados podem auxiliar três tipos de pessoas. Primeiro, os condenados; segundo, os pecadores, isto é, aqueles que caem em pecados e depois se levantam; terceiro, os bons que permanecem firmes. Mas você pode perguntar: “Como pode um indivíduo auxiliar os condenados, vendo que não merecem a graça e que é impossível para eles retornarem a este estado?” Deixe-me responder através de uma comparação. É como se houvesse inúmeros buracos no fundo de um precipício e qualquer um que caísse neles afundaria até as profundezas. Entretanto, se alguém bloqueasse um desses buracos, aquele que caísse não afundaria tanto quanto se ali houvesse um buraco aberto.
É isto o que acontece com os condenados. Embora, em razão de minha justiça e de sua própria maldade, eles tenham de ser condenados em um momento definido e previsto, ainda assim sua punição será leve se outros puderem evitar que façam maldades e os incentive a fazer coisas boas. É dessa forma que sou misericordioso mesmo em relação aos condenados. Embora a misericórdia defenda a indulgência, a justiça e sua própria maldade exigem o contrário.
Em segundo lugar, podem ajudar aqueles que caem, mas depois se levantam novamente ao ensiná-los como levantar, ao fazer com que eles tomem o cuidado de não caírem, e instruí-los a melhorar e a resistir a suas paixões.
Em terceiro, eles podem beneficiar os justos e perfeitos. Estes também não caem? É claro que sim, mas é para sua glória e para a humilhação do demônio. Assim como um soldado levemente ferido em batalha torna-se ainda mais encorajado para lutar , a tentação demoníaca da adversidade encoraja os meus escolhidos a seguirem a batalha espiritual e a humildade, o que aumenta a probabilidade de receberem a coroa da glória. Assim, minhas palavras não devem ser escondidas de meus aliados, pois, ao ouvirem a minha graça, eles se sentirão mais encorajados a tornarem-se meus devotos.
O segundo método do meu inimigo é usar a fraude para transformar meu ouro em barro. Por isso, quando qualquer uma de minhas palavras for transcrita, o encarregado de tal trabalho deve trazer consigo duas testemunhas confiáveis ou um homem cuja consciência foi provada para certificar que ele examinou o documento. Somente depois disso pode ser transmitida a qualquer um, para que não chegue às mãos do inimigo sem ter sido verificada e assim possa acrescentar idéias falsas, que pode levar à degradação da palavra verdadeira.
O terceiro método do meu inimigo é fazer com que seus próprios aliados preguem a resistência contra o meu ouro. Maus aliados devem dizer a aqueles que o contradizem: “O ouro dessas palavras contém apenas três ensinamentos. Eles o ensinam a temer corretamente, a amar piamente, a desejar os Céus sabiamente. Testem as palavras e vejam por si mesmos, e, se encontrarem qualquer outra coisa, contestem-na!”
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