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Irado, Deus apareceu e disse: “Esta obra (humana) vinda de minhas mãos, a quem destinei grande glória, considera-me com grande desprezo. Esta alma, a quem ofereci todo o meu cuidado, fez três coisas a mim: Desviou seus olhos de mim e os voltou em direção ao inimigo. Estabeleceu sua própria vontade no mundo. Depositou confiança em si mesmo, pois era livre para pecar contra mim. Por esta razão, como ela não se deu ao trabalho de demonstrar consideração por mim, demonstro-lhe minha justiça. Em razão de ter estabelecido sua vontade contra mim e depositado falsa confiança em si mesma, Eu o afasto do objeto de seu desejo.”
Então, um demônio gritou: “Juiz, esta alma pertence a mim.” O Juiz respondeu: “Quais acusações você tem contra ele?” Ele respondeu: “Minha queixa é a declaração em sua própria acusação de que ela lhe desprezou, seu Criador, e por causa disso tornou-se minha criada. Além disso, já que foi levada de maneira repentina, como ela poderia, subitamente, agradar-lhe? Pois quando seu corpo era sadio e ela vivia no mundo, não lhe serviu com sinceridade no coração, já que amava as criações mais fervorosamente, e nem mesmo suportou a doença pacientemente ou refletiu sobre as suas obras como deveria. No final, o fogo da misericórdia não queimava dentro dela. Ela é minha, pois você a levou embora repentinamente.”
O Juiz respondeu: “Um fim repentino não condena uma alma, a menos que haja inconsistências em suas ações. A vontade de um indivíduo não é condenada para sempre sem deliberação cautelosa.” Então a Mãe de Deus veio e disse: “Meu Filho, se um criado preguiçoso tem um amigo que tem uma boa relação com seu mestre, seu amigo não deveria defendê-lo? Ele não deveria ser salvo, se pedir por isso, pelo bem do outro?”
O Juiz respondeu: “Cada ato de justiça deveria ser acompanhado pela misericórdia e sabedoria – misericórdia para diminuir a severidade, sabedoria para garantir que a justiça seja mantida. Mas, se a transgressão for tal que não mereça perdão, a sentença pode, ainda, ser aliviada pelo bem da amizade sem infringir a justiça.” Então a Mãe disse: “Meu abençoado Filho, esta alma pensava em mim constantemente, me reverenciava e celebrava a grande solenidade em meu nome, mesmo que demonstrasse frieza em relação a você. Então, tenha piedade dele!”
O Filho respondeu: “Abençoada Mãe, você conhece e vê todas as coisas em mim. Mesmo que esta alma a mantivesse em sua mente, ela fez muito mais em favor de seu corpo do que para seu bem-estar espiritual. Não tratou meu puro corpo como deveria. Suas palavras infames o afastaram de desfrutar de minha caridade. O amor mundano e a desunião encobriram meu sofrimento. Sua morte foi acelerada quando considerou meu perdão como certo e quando não pensou em seu fim.
Embora tenha me recebido continuamente, isto não a fez melhorar, pois ela não se preparou de forma adequada. Um indivíduo que deseja receber seu nobre Senhor e hóspede não deve apenas preparar o quarto, como também todos os utensílios. Este homem não o fez, já que, embora tenha limpado a casa, não a varreu com cuidado. Ele não espalhou pelo chão as flores de suas virtudes ou preencheu seus utensílios com abstinência. Dessa forma, é possível perceber que ele merece o que e a ele deve ser feito”.
“Embora possa ser invulnerável e além da compreensão e possa estar em todos os lugares em razão de minha divindade, minha alegria está nos puros, mesmo se Eu entrar nos bons e nos condenados da mesma forma. Os bons recebem meu corpo, que foi crucificado e subiu aos céus, previamente representado pelo maná e pela farinha da viúva. Os maus também o fazem, mas enquanto que para os bons isto leva a uma maior força e conforto, para os maus leva a uma condenação ainda mais justa, visto que eles, em sua indignidade, não têm medo de se aproximar de um sacramento tão justo”. O demônio respondeu: “Se ele se aproximasse de você indignamente e sua sentença foi mais severa por causa disso, por que você permitiu que ele se aproximasse e o tocasse apesar de sua indignidade?”
O Juiz respondeu: “Você não está perguntando isto com amor, já que não o tem, mas meu poder o obriga a perguntar em razão da minha esposa que está escutando. Da mesma forma em que tanto os bons quanto os maus tocam minha natureza humana para provar a realidade da mesma, assim como minha humildade paciente, também os bons e os maus comem o meu corpo no altar – os bons para alcançar maior perfeição, os maus para que não acreditem que já estejam condenados e assim, tendo recebido meu corpo, eles possam converter-se, desde que decidam corrigir suas intenções. Que maior amor posso demonstrá-los do que aquele em que Eu, o mais puro, entro até mesmo nos mais impuros (posto que, assim como o sol, não posso ser corrompido)? Você e seus companheiros desprezam este amor, pois vocês se endureceram contra o amor”.
Então, a Mãe falou novamente: “Meu bom Filho, sempre que se aproximou de você ela lhe foi reverente, embora não como deveria ter sido. Ele também se arrepende de ter-lhe ofendido, embora não completamente. Meu Filho, por mim, considere isto em seu favor”. O Filho respondeu: “Como disse o profeta, Eu sou o verdadeiro sol, posto que sou muito melhor que o sol. Este não penetra montanhas ou mentes, e eu posso fazer tanto um quanto outro.
Uma montanha pode ficar no meio do caminho do sol e assim sua luz não alcança as terras vizinhas, mas o que pode atrapalhar meu caminho exceto o pecado que impede esta alma de ser atingida por meu amor? Mesmo se parte da montanha fosse removida, as terras vizinhas ainda não receberiam o calor do sol. E se eu entrasse em parte de uma mente pura, que consolo teria eu se pudesse sentir o mau cheiro vindo de outra parte? Portanto, uma pessoa deve livrar-se de tudo o que é sujo e então a doce alegria resultará desta limpeza”. Sua Mãe respondeu: “Seja feita sua vontade com toda a misericórdia!”
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